domingo, 11 de dezembro de 2016

517 - As bibliotecas dos escritores

De uma fabulosa conferência de Clara Crabbé Rocha sobre a biblioteca de seu pai, Miguel Torga, proferida no encontro Eterna Biblioteca, em novembro de 2016 em Sintra, retenho muita coisa na memória que lamentavelmente não registei e que permanecerá apenas na minha memória afetiva (não se fala sobre a importância da leitura, fala-se dos livros, lêem-se os livros).

Sobre uma biblioteca pessoal tive a sorte de registar algumas ideias soltas que as transcrevo:
Existiu o conceito de biblioteca como sendo a possibilidade de preservar os livros escondendo-os das mãos dos homens. [...] Cada biblioteca pessoal é diferente da outra. tem uma carga afetiva e memória que associamos a certos livros. Uma biblioteca pessoal de um escritor é feita de memórias e afetos... é uma presença carregada de recordações. De leituras de infância que as fizemos aos vinte anos e retomámos aos cinquenta.  

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Procuro na internet um excerto de um texto dito por Clara Crabbé Rocha e descubro outro, publicado no jornal público cujas ideias mestras, de alguma forma, também foram partilhadas pela conferencista na sessão. Por isso as transcrevo aqui,
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"Miguel Torga teve muitos lugares de escrita, como a sua obra largamente documenta, mas o n.º 3 da rua Fernando Pessoa foi um dos mais constantes, a par do consultório no Largo da Portagem [em Coimbra] e da casa natal em Trás-os-Montes", escreveu a filha, Clara Crabbé Rocha, na brochura da casa-museu. Na casa podemos visitar o escritório, espaçoso, sobre a varanda do primeiro andar. Na mesa, a máquina de escrever Royal; nos armários, milhares de livros (muitos ainda por inventariar). No recanto, um divã a que chamava "o meu sarcófago", inspirado na torre de leitura de Montaigne. "O lugar de Miguel Torga era a própria escrita, era dentro dela que o poeta vivia em certas horas, ao mesmo tempo alheado e inteiro. Era na escrita que gostava que os leitores o procurassem, o compreendessem e o amassem. Por isso a casa-museu não é mais do que uma peça dum conjunto biográfico, convidando à leitura e à fruição da sua obra", continua a filha."

A montanha é, de facto, a grande musa da obra de Torga: "A verdadeira paisagem da minha vida é uma grande serra nua." Só está bem quando regressa a São Martinho de Anta, onde o Douro corre no fundo do penedo rasgado em socalcos e onde as pedras da serra são duras e roladas como gigantescos seixos. "Este Trás-os-Montes da minha alma! Atravessa-se o Marão e entra-se logo no paraíso!" A relação com a paisagem é quase pudica, ele não se mistura nela, não se tornam um. Pelo contrário: o poeta respeita-a, divindade suprema, ama-a "de uma maneira casta, comovida, sem poder macular a sua intimidade em descrições a vintém por palavra". Sabe que está em casa quando chega à terra, chama ao Douro a sua "carótida", é na montanha que bate o coração: "Chego a uma terra e não resisto: tenho de me meter pelos campos fora, pelas serras, pelos montes, saber das culturas, beber o vinho e provar o pão."

"A semente, a seiva, a colheita, a água, a terra, o vento, o pão, o parto, o pastoreio, Adão e Eva, por exemplo, recorrem nos seus livros como se fossem, não ideias, mas imagens irradiantes", escreveram Óscar Lopes e António José Saraiva. Isto na sua obra ficcional, mas também nos Diários: 16 volumes de 1932 a 1993. Começam, Torga é ainda um estudante de Medicina em Coimbra, vive numa república (a mesma onde anos depois descerraram uma placa de homenagem - ele não gostou), atravessam o século XX, as suas viagens, inquietações, a solidão da escrita, mesmo já marido, pai, amigo, e, antes, jovem, preso no Aljube (meses entre 1939 e 1940), crítico observador do mundo. "Nem romance, nem contos, nem poemas. Apenas este monólogo. Se isto pudesse continuar não era de todo desengraçado publicar mais tarde, na íntegra, os frutos insossos de alguns dias de repouso. Um voluminho doméstico, espontâneo, descuidado, para o qual eu fosse, como leitor, sem a relutância com que vou sempre para os outros que escrevi", escreveu no primeiro Diário, ainda em 1940. Publicou-os um a um em edições de autor (a Dom Quixote fez uma primeira reedição conjunta, em quatro volumes, em 1995 após a sua morte).

Casa de amigos

A visita à casa-museu começa com um poema de Torga, um longo auto-retrato que, de certo modo, define o homem cuja casa, espaço íntimo, percorremos. "É preciso compreender Miguel Torga para compreender a sobriedade desta casa", explica a vereadora. Mas "apesar de sóbria tinha elementos de extremo bom gosto". A filha, Clara, conta que Torga e Andrée "foram fazendo ao longo dos anos o interior de sua casa, percorrendo os antiquários e adquirindo aos poucos os móveis e as peças de arte que durante varias décadas aconchegariam o seu quotidiano". Por isso, a casa é feita de "vivências, memórias, objectos", é a casa dos "pais", "que foi também a minha durante quase três décadas", escreve.

Aqui recebia os amigos. E por aqui passaram, segundo a filha, presidentes da República, primeiros-ministros, políticos, embaixadores, intelectuais, editores estrangeiros. "O vinho do Porto habitualmente servido às visitas era um dos rituais dessa forma de convivialidade, como o eram também os almoços ou jantares de perdizes estufadas ou da famosa vitela assada que Ruben A. gostosamente evoca na sua autobiografia O Mundo à Minha Procura", escreve Clara Rocha.

É o que conta a vereadora: ainda há muitos amigos de Torga, gente que o conheceu, com quem conviveu, que visita a casa e se lembra deste e daquele episódio. Se esperamos evocações profundas porque estamos na casa de um escritor, é em vão: as memórias são íntimas, sim, mas sobre os assados da Dona Andrée ou as patuscadas com os amigos à mesa. O poeta e político Manuel Alegre corrobora, no catálogo da casa: "Andava em campanha eleitoral, ele [Torga] encontrou-me na rua e disse-me: fui caçar para ti, anda jantar lá a casa. (...) Foi, de certo modo, uma iniciação. E eu saí daquela casa com a sensação de ter sido armado cavaleiro duma ordem desconhecida".

sábado, 10 de dezembro de 2016

516 - Rede de Bibliotecas Escolares nasceu há 20 anos (Antena 1)

Post elaborado por rede de bibliotecas escolares: http://blogue.rbe.mec.pt/rede-de-bibliotecas-escolares-nasceu-ha-2024397  


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O saber não ocupa lugar, mas precisa de espaço para ser transmitido, razão pela qual a Rede de Bibliotecas Escolares cresceu: são hoje quase 2500 em todo o país.

A repórter da Antena 1 Sandy Gageiro foi visitar uma destas bibliotecas, considerada um modelo, na escola Gama Barros, do Cacém.
A coordenadora da Rede Nacional de Bibliotecas Escolares, Manuela Silva, esteve à conversa com a rádio pública e fez um balanço dos 20 anos do sistema.
Manuela Silva refere que a realidade atual acaba por distanciar as pessoas da leitura. E são as bibliotecas escolares que, muitas vezes, levam as crianças a descobrir o gosto pelos livros.
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A mesma responsável explica ainda que existe um fosso digital e que cabe às escolas, em parceria com as bibliotecas, estabelecer um elo de ligação entre as novas tecnologias e os livros.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

515 - Testes PISA 2015: os alunos portugueses melhoram a ciências, leitura e matemática

Dedicado a quem gasta o seu tempo a denegrir o muito e bom trabalho que se fazem nas escolas portuguesas.  Tudo isto não é fantasia, nem pouco consistente. só quem não anda pelas escolas e compara com o que vê em muitos outros países europeus é que não acha estes resultados absolutamente normais . Parabéns a todos os que ousam mudar e acreditar.

A partir de um texto publicado no jornal expresso em: http://expresso.sapo.pt/sociedade/2016-12-06-E-agora-no-PISA-alunos-portugueses-melhoram-a-ciencias-leitura-e-matemática 

por Isabel Leiria   Isabel Leiria Jornalista; Maria João Bourbon Maria João Bourbon Jornalista ; Sofia Miguel Rosa Sofia Miguel Rosa
Jornalista infográfica

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foto Alberto Frias

Depois de terem surpreendido nos testes internacionais realizados no 4º ano, os jovens portugueses mostram o quanto melhoraram no maior e mais conhecido dos estudos, o PISA. Na literacia científica e de leitura os jovens de 15 anos conseguiram ultrapassar “significativamente” a média da OCDE

As boas notícias no mundo da Educação continuam. Pela primeira vez em seis edições do PISA – o maior estudo nesta área que testa a literacia junto dos alunos de 72 países e regiões –, os estudantes portugueses de 15 anos conseguiram um desempenho significativamente acima da média da OCDE, tanto a ciências, como a leitura. A matemática mantiveram-se na média. Em todos os casos, a evolução é inegável desde que o país começou a participar neste estudo, em 2000, com Portugal a galgar várias posições na comparação internacional.
Foi um longo caminho para aqui chegar e muitos reivindicarão os méritos do sucesso. Mas o que os resultados do Programme for International Student Assessment (PISA) 2015 mostram sem margem para dúvidas - e na semana passada demonstrou o TIMMS, feito por alunos do 4º ano na área da matemática e ciências - é que o país já não pertence mais à cauda da Europa ou da OCDE.
No caso do PISA, a evolução começou logo no início do século, com saltos mais significativos no período 2000-2003, 2006-2009 e agora entre 2012 e 2015, nota o Instituto de Avaliação Educativa, responsável pela aplicação dos testes em Portugal a uma amostra representativa de mais de sete mil alunos.
 
O estudo realiza-se de três em três anos e pretende dar o retrato não tanto dos conteúdos aprendidos nas escola, mas daquilo que os miúdos de 15 anos conseguem fazer com eles, designadamente para “resolver situações relacionadas com o dia-a-dia das sociedades contemporâneas”. No caso da literacia científica, o domínio que esteve em destaque no PISA 2015, estão em causa a explicação de fenómenos cientificamente, conceber e utilizar o método científico para resolver um problema e interpretar dados e factos de forma científica.
Em 2000, Portugal ocupava a antepenúltima posição na literacia em ciências e em leitura. A Matemática só tinha quatro países atrás. Agora, e contando apenas com os 35 Estados que integram a OCDE, as posições de Portugal são estas: 17º na literacia científica, 18º em leitura e 22º a matemática. Se se contar com o universo de 72 participantes - dentro e fora da organização -, os lugares passam a 23º, 21º e 29º, respetivamente.
 
Curiosamente, e ainda que Portugal tenha sido um dos países a apresentar uma “tendência de melhoria significativa” dos resultados nos três domínios analisados, foi a ciências que os alunos mais se destacaram. A progressão entre os testes de 2015 e os de 2006 (quando a literacia científica foi também a principal área em avaliação) foi de 27 pontos, descolando da Grécia (que tinha um resultado semelhante a Portugal em 2006) em mais de 40 pontos, o equivalente – segundo a OCDE – a mais de um ano escolar. E entre 2015 e 2012 a diferença foi de 12, enquanto para leitura e matemática se ficou pelos 10 e 5 pontos, respetivamente.
 
Fazendo a comparação com o início da história do PISA, a progressão média foi de 2,8 pontos/ano em ciências, 2,6 em matemática e 1,8 em leitura.
Mas há mais: Portugal foi o país que registou uma melhoria mais acentuada na percentagem de alunos com os melhores desempenhos em literacia científica (a OCDE chama-lhes “top performers”, com resultados iguais ou superiores ao nível 5) entre os dois ciclos de avaliação (2006 e 2015) e um dos que mais viu a percentagem de “low achievers” (alunos com piores desempenhos, abaixo do nível 2), diminuírem

 Continuar a ler em: http://expresso.sapo.pt/sociedade/2016-12-06-E-agora-no-PISA-alunos-portugueses-melhoram-a-ciencias-leitura-e-matemáticauir.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

514 - Mapas mentais. Assim se percebe o desenvolvimento dos nossos alunos

Pelo segundo ano consecutivo a escola onde lecciono organizou uma exposição com trabalhos relativos à disciplina de geografia. A ideia é muito simples: pede-se aos alunos do 7º e 8º ano que representem/desenhem a Europa e o mundo de memória, isto é, sem olhar para um mapa.
não deixo de me espantar com os mapas que vejo. não creio que os miúdos sejam imaturos ou pouco estudiosos. Creio apenas que a aprendizagem leva tempo e ter mapas mentais claros nas nossas cabeças, implica anos e anos a olhar e interiorizar até que tudo aquilo faça sentido na cabeça. É como ler, quanto mais se lê, melhor se lê e se domina a competência leitora.

Que lição nos dão os nossos alunos, assim queiramos nós, os seus professores, aprender com eles.