terça-feira, 15 de março de 2016

498 - Reflexões sobre o sistema educativo Finlandês IV


Na sequência das minhas publicações anteriores (ver etiquetas:Joensuu, Finlândia, projeto MAIS ou sistema educativo Finlandês), sigo continuando o meu relato sobre a minha dupla experiência em Joensuu, na Finlândia a segunda das quais no âmbito do projeto Erasmus+ KA1 MAIS desenhado pelo AE Carlos Gargaté onde leciono na qual fui frequentar um curso sobre gestão escolar.  


II - Perplexidades 1ª parte


1 - Filosofia docente 
Este é um ponto interessante e paradoxal, pois é preciso ver para lá das palavras e dos discursos. Um dos tópicos do curso de gestão escolar que frequentei era a filosofia docente na Finlândia e, sobre isto, tirei os seguintes apontamentos:
 
Um professor deve: 
- Assumir-se como líder valorizando o diálogo e não o “diz que diz” na sala de professores. Deve falar diretamente ou calar-se para sempre;
-  Deve assumir-se e assumir o seu papel. Se o não fizer, outros o farão por si. Está no palco;
- O diretor/o professor é um treinador de uma equipa de futebol (ou maestros). Tem de colocar as pessoas nos sítios certos --> elas é que tocam;
- Há um trabalho de mentorização a ser feito junto dos professores: Motivação, Aprendizagem, inovação, satisfação;
- Devem ser responsabilização das estruturas intermédias: autonomia, liberdade, responsabilidade;
- É necessário apostar no potencial de cada professor – perguntar-lhes o que podem oferecer à escola;
- O diretor deve assumir que gere gente altamente qualificada: não posso admitir que um professor me diga que não sabe falar em público.

Então pergunto eu:
- Não estamos perante um corpo docente escolhido a dedo e só os melhores é que vão. Então apesar disso também há problemas? Então este assunto faz parte do curso? então é porque é trabalhado nas escolas Finlandesas. Se o não fosse não era tema do curso. A gente só precisa de reflectir sobre aquilo que quer melhorar. Certo? 
Afinal os professores finlandeses são da mesma massa dos portugueses. É é necessário trabalhá-los. Certo?  

2 – Na Finlândia estão a fazer uma reforma curricular que entra já em vigor em 2016 e 2019. Então mas então não funcionava tudo bem na Finlândia e os resultados não eram excelentes? 
Bom, lendo o contexto da reforma percebe-se a ideia. Não é que nada funcione, mas é necessário adaptar a escola à época em que vivemos onde a informação e a mudança nos saberes hiper abundam. Irá ser introduzida uma área de integração onde se cruzarão saberes. Ora esta é uma bofetada de luva branca para quem desacreditou da área de projeto. Também se querem jovens que tenham uma iniciativa e intervenção cívica (hum, se se quer é porque não há o desejado, certo?); defende-se ainda um reforço da literacia da escrita e da leitura (vale o mesmo raciocínio anterior). 
 
3Uso das TIC – Existe uma desigualdade de acesso na Finlândia. Cerca de 80% das escolas tem 10 alunos por computador, mas há algumas onde há mais de 40 alunos por computador. As escolas são diferentes no uso das tecnologias e equipamentos e nem todos os professores as usam com fim educativo apropriado e adequado (uso pedagógico). 
 
4Resultados da aprendizagem – Há também uma questão de género na Finlândia. A Finlândia tem as maiores diferenças entre rapazes e raparigas in termos de literacia da leitura entre os países da OCDE. Também há diferenças regionais nos teste PISA (Rural/urbano)
 
5 - Resultados de aprendizagem II - Apesar da reduzida retenção, os rapazes retêm mais! (70% contra 30%) e parece que nada é feito para resolver esta questão. 

6 – Há uma necessidade verbalizada de apostar no bem estar dos professores - Chama-se a atenção para as condições de trabalho , equipamento disponibilizado, oportunidades para formação contínua, supervisão no local de trabalho, apenas metade dos professores têm computador no local de trabalho.
Esta questão é muito similar à referida acima. Então afinal parece que nem tudo funciona bem na Finlândia e ue´e necessário que estes façam formação contínua. 

7 -  5% dos alunos não gostam da escola - Com tão boas escolas e professores, em 2010, 5% dos alunos do 8º e 9º ano afirmaram não gostar nada da escola. 

Hum... quero crer que endeusar em demasiado fazendo contraste só pode levar a um desânimo e frustração. Não pode ser tudo bom por lá e nada bom cá e também não vale puxar od exzemplo da Finlândia só para o qu interessa.  

 

segunda-feira, 14 de março de 2016

497 - Reflexões sobre o sistema educativo Finlandês III



Na sequência das minhas publicações anteriores (ver etiquetas:Joensuu, Finlândia, projeto MAIS ou sistema educativo Finlandês), continuo agora o meu relato sobre a minha dupla experiência em Joensuu, na Finlândia a segunda das quais no âmbito do projeto Erasmus+ KA1 MAIS elaborado pelo AE Carlos Gargaté onde leciono na qual fui frequentar um curso sobre gestão escolar.  


I - reflexões gerais - 3ª parte


15 - Inspeção Geral de ensino 

Esta foi abolida desde o início dos anos 90 do século passado. Quebra-se assim a lógica da necessidade absoluta de Fiscais/papões externos que assegurem a qualidade de ensino, como se o que contasse para a qualidade não fosse o trabalho quotidiano de quem trabalha nas escolas e de quem avalia esse mesmo trabalho no contexto em que este foi realizado.  
Isto não quer dizer que não haja leis nacionais, nem grandes lnhas de trabalho e de orientação, mas cabe às escolas autoavaliarem-se e encontrarem processos de aferição do seu trabalho. 
(permita-se a nota pessoal de que nada tenho contra as inspeções e inspetores, creio é que algumas vezes as orientações  que deixam nas escolas e que se tornam normativas, são descontextualizadas e pouco ajudam ao trabalho e progresso da unidade orgânica) 


16 - Curiosidades obtidas a partir da leitura do documento: "Key figures on early childhood and basic educatiom in Finland"




  • Metade das escolas têm cerca de 100 alunos donde aquela ideia dos enormes centros escolares que se construíram em Portugal pode não significar, em absoluto, melhoria das aprendizagens, embora não negue que uma esdola com 4 ou 5 alunos não faz sentido ;  
  • 41% dos alunos escolhe um curso vocacional no 10º ano e não a continuação dos estudos de nível secundário e superior - pág 26 ;
  • 7% dos alunos tem special support e 13% tem special support e intensified support; 22% dos alunos do Ensino Básico teve special support em part time (Pág 41) isto significa que os alunos têm apoios de modo a recuperar atrasos e problemas de aprendizagem evitando retenções;
  • Só 0,4% (2000) alunos retêm por ano (Pag 44) - Isto significa que há todo um conjunto de apoios de modo a que os alunos acompanhem os grupos e a retenção não é considerada a saída para quem não trabalha. A retenção é considerada mesmo uma medida extraordinária e não uma das soluções para os alunos;
  • Os alunos podem fazer escolher fazer um ano de um 10º ano especial para fortalecer as suas aprendizagens ou apoiar a sua tomada de decisão no relativo à escola de uma orientação;
  • Na Finlândia há menos horas de aulas que a média europeia (Cf. pag. 15) 
  • apenas 8% dos alunos não poderá ir para a universidade (Cf. pag. 29) 

terça-feira, 8 de março de 2016

496 - As nossas fantásticas bibliotecas


 Tive hoje o privilégio de ser convidado para fazer parte de um júri de um concurso de leitura organizado pela Biblioteca Escolar de uma escola da margem sul do Tejo.

Para além do facto de ter assistido a uma belíssima atividade de promoção do gosto de ler com proficiência, comoveu-me e interessou-me uma atividade que os meninos de uma saal do Jardim de infância fizeram durante  o tempo em que o jurí decidia o vencedor.

Os meninos cantaram e teatralizaram a canção e isso não teria nada de extraordinário se não se desse o facto de que,  quando se vê isto numa visita a uma escola no estrangeiro se acha que lá eles fazem um trabalho fantástico e os meninos parecem felizes. Vendo o mesmo tipo de atividade, aqui em Portugal, muitos julgam-na banal.
Não é! é educação, é formação, é currículo. Confesso que me comovi tanto como se estivesse no estrangeiro!

Parabéns ao trabalho que os professores vão fazendo por esse país fora. Parabéns à equipa da Biblioteca por estar tão bem integrada na vida desta escola.
P.S. E não é que os meninos liam mesmo bem?

domingo, 6 de março de 2016

495 - Reflexões sobre o sistema educativo Finlandês II


Na sequência da minha publicação de 28 de fevereiro continuo agora o meu relato sobre a minha dupla experiência em Joensuu, na Finlândia, onde tive a oportunidade de conhecer mais de perto o sistema educativo Finlandês.


I - reflexões gerais - 2ª parte


8 - Estabilidade das políticas educativas que tiveram origem nos anos 80 e 90

Em tudo o que li, pareceu-me existir uma grande estabilidade das políticas educativas, senão vejamos:

- Basic education act de 1998;
- Qualifications of educational staff de 1998;
- Autonomia das escolas e descentralização educativa, abolição das inspeções - anos 90 do século XX;
- National core curriculum - janeiro de 2004;

Poderemos objetar que também em Portugal a LBSE é de 1986, mas é do domínio público que desde 2001 se assistiu a uma série de reformas curriculares de 4 em 4 anos sem que se conheçam avaliações das falhas dos modelos anteriores.

9 – Retenções

Quase não há retenções na Finlândia, em cada ano só cerca de 0,4% dos alunos do ensino básico ficam retidos (cerca de 2000). Creio que isto também decorre de uma filosofia de base do sistema. Explico-me: não acredito que todos os meninos finlandeses sejam focados na sua aprendizagem e que estes sejam muito diferentes dos alunos portugueses que parecerão decididos em não aprender. A questão é que a filosofia do sistema e da avaliação é diferente. Alí procura-se o sucesso, aqui retém-se o aluno pelas mais diversas razões, acha-se isso natural. A retenção faz parte da filosofia do ensino Português e a mentalidade do professor está preparada para tal.
A lógica da avaliação não é para o certificado/certificação, mas para dar feedback concreto aos alunos de modo a que estes aprendam e tenham motivação para aprender. Um feedback explícito que diga o que vai bem e o que necessita de ser melhorado. Esta avaliação também dá feedback ao professor no sentido de este perceber o que está a andar bem ou mal e o que necessita de ser alterado ou não.   

10 - Currículo do ensino

Aqui a filosofia de base é também diferente entre o sistema de ensino Finlandês e Português. Na Finlândia continuam-se a privilegiar as expressões artísticas: Música, trabalhos manuais (Madeira, metais, desenho e pintura, têxteis, ...) há uma filosofia de base que afirma que o currículo deve privilegiar mãos e cérebro. Vêem-se em todas as escolas: máquinas de costura, fogões, oficinas, instrumentos musicais, tornos, brocas, pregos, fios elétricos, ...

Bom diga-se em rigor que vi tudo isto em inúmeras escolas de inúmeros países que já visitei: Noruega, Dinamarca, Suécia, Finlândia, Lituânia, República Checa, Irlanda, Inglaterra. Em Portugal é que desde há mais de 3 décadas é que se desinveste cada vez mais no trabalho de mãos. Uma vez ao mostrar a minha escola a um grupo de professores estrangeiros questionaram-me se lhe estava a esconder as oficinas. Não perceberam que estas não existem! Creio que esta é mesmo uma grande falha no nosso sistema de ensino pois desvaloriza-se uma dimensão essencial do ser humano que é a sua experiência sensorial que lhe é essencial para chegar aos conhecimento e a um desenvolvimento equilibrado (veja-se um bebé e o uso que faz das mãos para descobrir e se desenvolver!).

11 - Gestão curricular

Na Finlândia há um currículo base mas existe autonomia dos professores e das escolas no respeitante à gestão do currículo e número de horas de lecionação existindo limites máximos e mínimos. Não é escondido que esta situação pode levar a disparidades, mas não se tem abdicado da possibilidade de gestão a nível da escola que é o local onde se realizam as caprendizagens. Há de facto aportunidade para uma gestão local a partir de diretrizes nacionais. 

12 – Filosofia de base LBSE 
Sistemas educativos são todos muito parecidos.Há uma interoperabilidade de percursos formativos na lógica de um aluno poder mudar de orientação formativa e puder ir para a universidade após um curso técnico o que na prática acontece muito pouco. Há um  exame ao fim do 9º ano de ensino em língua materna, inglês e matemática. quem não for bem sucedido nestes exames não pode ir para o ensino secundário regular tendo em vista a obtenção de um grau académico  os últimos dados disponíveis apontam para 0,8% (5300 alunos)  

12 – Ambientes de aprendizagem








Nas escolas que vi e nas salas de aula em que entrei as áreas eram grandes e o mobiliário existente era flexível o que permite rearrumações de acordo com a estratégia de aula que se quer implementar. As salas de aula também estavam bem equipadas a nível tecnológico sendo que se a tecnologia não é tudo, esta pode ajudar. As Salas de música parecem mais estúdios do que salas de aula teóricas onde há também instrumentos musicais. 
Pareceu existir uma opção estratégica de se conceber a escola numa lógica que favoreça as aprendizagens. No dizer do diretor de uma delas, Dr Heikki Happonen, um bom ambiente de aprendizagem reflete a noção de como as pessoas aprendem, sendo que, deste modo, um edifício escolar e o seu envolvimento físico acabam por transmitir uma mensagem que espelha a noção que se quer para a escola: fábricas, prisões ou ambientes de aprendizagem.

Os edifícios escolares aparentam ser iluminados, abertos, com grandes áreas inundadas de luz. Apetece estar nestes espaços (e não me refiro apenas a alunos). Veja-se o caso de salas de aula que permitem trabalhos de grupo, trabalhos de tutoria, exposição por parte do professor ou ainda oferecerem um espaço de relax para um ou outra situação “complicada”. Um exemplo paradigmático desta conceção é a escola "primária" de Heinavaara (comunidade rural) em que as paredes da sala de aula são substituídas por vidros, o que implica que, fora da sala, todos possam ver o que se passa dentro dela.

13  Diferenciação nos horários de trabalho
 Os diferentes professores não têm todos os mesmos horários. os professores de línguas têm menos horas de aula porque é suposto terem mais trabalho quotidiano para corrigir: correcção de textos, exercícios de gramática, etc. 



terça-feira, 1 de março de 2016

494 - Mapas mentais

Confesso que achei fantástica a exposição de trabalhos escolares que uma professora de Geografia organizou e que se referiam à elaboração de planisférios por alunos do 7º e 8º ano de escolaridade, sendo que estes planisférios seriam elaborados a partir de uma representação mental e não por cópia de algum planisfério existente.

Esta exposição permite constatar o que fica na cabeça dos miúdos após 7, 8 ou mais anos de escolarização e como estes têm ou não contacto com mapas na sua vida. Há mapas para todos os gostos desde aqueles com alguma aproximação à realidade, àqueles sem aproximação nenhuma a essa mesma realidade, havendo até um no qual Portugal ocupa uma dimensão hiper-exagerada. 

Este exercício torna.se ainda mais interessante por demonstrar à saciedade que se pode avaliar e testar de muitíssimas outras formas e que a avaliação por um instrumento escrito, tipo teste, acaba por ser redutora, pois treina os alunos sempre para o mesmo tipo de representação e de exercício. Quem sabe se também terão havido alunos bons aqui a menos bons nos tradicionais testes escritos.

Creio ainda que este tipo de exercício permite ainda aferir o grau de desenvolvimento mental dos alunos, pois no desenho o disfarce é mais difícil visto que cada um deles está menos habituado/treinado  a "disfarçar" do que na escrita.