domingo, 28 de fevereiro de 2016

493 - Reflexões sobre o sistema educativo Finlandês I


Pela segunda vez na minha vida estive em Joensuu, na Finlândia, e tive oportunidade de conhecer mais de perto o sistema educativo Finlandês.
A primeira vez foi há cerca de três anos (Março de 2013) onde participei numa visita de estudo organizada pela University of Eastern Finland e que teve a temática: "The teaching profession, teacher education and basic education"  e se destinava a dirigentes, quadros e responsáveis educativos europeus (dessa visita de estudo fiz, na altura, algumas reflexões neste blogue- Ver etiquetas conexas). Mais recentemente, em janeiro deste ano, frequentei um curso sobre "school managment" no âmbito da ação KA1 do projeto Erasmus+ ao qual o AE Carlos Gargaté na Charneca de Caparica,  a escola em que leciono se candidatou no âmbito de um projeto ao qual chamou MAIS (Motivação, Aprendizagem, Inovação e Satisfação).     

Destas duas experiências inesquecíveis tenciono fazer uma síntese, publicando neste blogue algumas reflexões sobre aspetos que considero centrais quando penso no sistema educativo Finlandês. 

De tudo o que escreverei adiante (e irei fazê-lo em três fases: I - reflexões gerais; II - Perplexidades; III -Boas práticas a transferir) importa ter em conta que apenas estive em Joensuu e não em toda a Finlândia e que, nesta cidade, tive oportunidade de visitar apenas 6 ou 7 escolas, decerto as melhores, pois ninguém organiza algo e abre as portas para mostrar o que funciona menos bem! De qualquer forma, considero que isso até faz sentido e que as boas práticas são para ser inspiradoras e para levar o visitante a acreditar que aquilo que vê também é possivel de ser transferível para a sua instituição. 

1 – Creio firmemente que ser professor é uma profissão de prestígio na Finlândia. Deste modo lá os decisores (locais pois na Finlândia não há concursos nacionais de docentes) têm oportunidade de poder escolher para professores apenas os mais qualificados para o exercício da profissão docente sendo que só 10% dos candidatos chegam a ser professores, sendo que para o serem, é-lhes ainda exigido o grau de mestre. Poderemos argumentar que em Portugal também já se passa o mesmo pois há mais candidatos que vagas e o mestrado é também comum para quem chega agora ao ensino. Isso é verdade, mas não estou certo que ser professor seja uma profissão muito considerada e desejada em Portugal e isso faz a diferença, quando se fala nos melhores. (Voltarei a este assunto noutro post).

2 - Há um grande cuidado na formação dos professores nas universidades e os class teachers (professores generalistas do ensino básico) são mesmo muito bem trabalhados. Já para o caso dos professores do   secundário, por serem profissionais muito qualificados e especializados (através da frequência também do ramo científico)   estes acabam por ter também o apelo do mundo empresarial. Exemplo paradigmático são as escolas construídas de propósito no campus universitário onde os estagiários podem fazer estágio. Não se chega a professor só por notas... 




3 - Em 2013, escrevi num relatório que fiz relativo à visita de estudo: "Os Finlandeses têm orgulho nos seus professores e esta é uma profissão bem vista. Esta perceção sobre os professores tem inúmeras consequências: 
Nas minhas várias visitas a escolas e nas conversas formais e informais que fui mantendo, constato que os professores e as escolas, têm imensa auto estima e autoconfiança sobre o seu trabalho. Sabem que fazem bem e que o que fazem é apreciado sendo que isso muda tudo! Pela Finlândia não se procuram culpados de fracassos mas apoiam-se os professores.
As pessoas vestem a camisola, as escolas querem continuar a fazer bem e as coisas boas acontecem."

4 – Há uma confiança absoluta no sistema de ensino: os diretores confiam nos professores e nos alunos e todos uns nos outros. Cada um sabe qual o seu papel; (os pais também): Derivado a este facto, há uma extrema abertura e transparência no sistema que se reflete na abertura completa de salas de aulas a quem queira nelas entrar. No dizer de um diretor: "We trust that every school in finland is a good school. "Tive nas duas vezes que fui a Joensuu a oportunidade de observar aulas e nenhum impedimento me foi colocado. Nenhum! (e sabe-se bem que algo que corresse mal numa sala de aula poderia ser levado para o estrangeiro!). Creio que isto significará que os professores estão plenamente seguros do seu trabalho: ensinam, creem que o fazem bem e portanto, não há nada a temer. Nós ensinamos, os alunos aprendem ou não, mas isso é problema deles. Cada um que faça o seu papel. 


5 - Não há inspeção nem exames nacionais. Basta a autoavaliação da escola e a consciência de que o sistema funciona bem! 


6 - Palavras chave a reter: Responsabilidade, verdade, respeito , motivação (de alunos e professores). Escrevi em 2013 que:  
" Sentido de responsabilidade pessoal por parte dos alunos - Decididamente a imagem que me fica dos alunos de todos os níveis de ensino com os quais tive oportunidade de me cruzar era de que estes davam a impressão de se sentirem felizes na escola e de esta fazer sentido para eles. Pareceu-me existir um sentido de responsabilidade pessoal, fruto da confiança que os professores depositam nos alunos e que estes têm uma motivação intrínseca na aprendizagem."
 
7 - Filosofia de ensino: Nenhum criança deve ser deixada para trás. deve ser explorado o seu potencial e esta frase não é só conversa "fiada" no relativo a ideias base.